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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

No viés da cortina escura

Meu mundo caiu na primeira faixa do lado A...

... entre recortes de jornais amarelados dos tempos (todos) em que não sorrimos.

... podando do claro o avanço do viés da cortina escura no escape da janela.

... no desconforto de um novelo de roupas amontoadas que absorvem duas laudas inteiriças e uma terceira a ser preenchida de um escrito que vomita à lógica.

... e na estampa de um gênio em transe na capa de um livro.

... e na imagem de mulheres e homens que sonhavam de faixas e sandálias e gritavam abaixo e contra.

... num imaginário armazém de cabeças de senhores encastelados e cortados sob a violência que destila um vermelho expresso de sangue no taco descolado do piso que se alimenta de pó.

... no redemoinho da memória de um pátio de escola frustrado por não ser quartel.

... entre xícaras de café tomadas pelos dias e pelas moscas.

... dentro de um pacote de supermercado que gruda extrato de margarina e pães de meses.

... e num pedaço de papel amassado onde o tingimento azul da caneta mais barata escreveu o nome composto da menina mais bonita.

... envolto no grito não gritado de farra farsa de cidade que brada Europa.

... e na ânsia de querer ver extraditada uma unha.

... e no medo do revolto dragão desenhado em página dupla.

... desesperado por não ter partido a cabeça numa corrida contra a parede branca e consciente de que não será iluminada.

... sem forças para pesquisar uma faca entre pilhas gastas e moedas em desuso.

... na ausência da coragem para que o pulso sirva à lâmina.

... no arrependimento de não ter sido a palavra final da discussão.

... na diplomacia de não ter cuspido, cunhado e grunhido um palavrão.

... na fisionomia de acomodado que finge aceitar: é assim.

Meu mundo caiu na fraqueza do abrigo que ceifa a mão quando ela é desejosa por abrir a cortina.


(Ayrton Baptista Junior, 1999)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Palavra soprada

Um sussurro denuncia o desejo. Palavra soprada, o nome da bela alcança a janela e encontra o infinito. Uma linha avista e avisa a palavra: “Eu sei desenhá-la!”. Traços tão belos e fiéis à palavra que, apaixonada, responde: “Não sei descrevê-la”.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Círculos ao redor da mesa

Andava em círculos ao redor da mesa. Teias de pó e aranhas pisoteadas o cercavam. A poeira se acumulava quanto mais as janelas se abriam. Ela permitia ao vento que ventasse, mas se um sopro varresse a poeira, as janelas morreriam em estrondos de pás de cimento.

Uma multidão de portas abertas o rodeava e ele vivia a dizer a ela o que dissera havia pouco. Ela permanecia ali a ouvir o que ele dissera ontem, o mesmo que dissera anteontem com as mesmas vírgulas e exclamações. No íntimo, ele queria que ela fugisse dali. Não desejava vê-la partilhar de seus dias amargos. Penumbras e sobras de primavera se digladiavam naquele quarto.

Talvez sem querer, ela havia estacionado seus dias ali. Após muito falar ele e ouvir falar ela, não havia mais o que falar e ouvir. Para que o silêncio não fosse denunciado, pontos perdidos serviriam aos pares de olhos. Ela ainda olharia as portas e até as atravessaria. Tudo para fazê-lo ver que nada ali era miragem.

As noites embutiam calor e se anunciavam intensas. Se cumprida a intensidade, raios de sol entrariam por todos os poros. Mas o encontro não terminaria em abraços, adeus ou até logo. Numa quase madrugada, ao tentar cruzar os olhos seus com os dela, perceberia estar de volta só. Algum sopro de vida passou perto e ela embarcou.

Ele nada mais diria. Se debruçaria sobre a poeira e continuaria a andar em círculos. Vez que outra queimaria fotografias amareladas. O fogaréu as levaria e elas perderiam o amarelo.

O incêndio tornaria os retratos ainda mais presentes.

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Ayrton Baptista Junior, em 2003

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Trago Traços e Teço à Ti

Teço a noite em linhas afáveis. Arrisco quase e em pedaços que ampliam formas vôo tudo. As linhas, sim, finas são tênues. Não há o que ou mãos a provê-las de espessura.

Trago traços trilhados e, fraco, crio e falho num dia que não é mais ontem. Vejo vãos aptos ao abismo e movo crenças em um jorrar coberto de folhas baratas e urgentes. Percebo falharem espelhos, mas não rosto, lágrimas e verbos em desistências. Estes soluço a conjugar na pessoa que sou, mas meu desespero reprova em gramática.

Na esquiva ao abrupto, volto à tecelagem e, tranquilo, traço leve. Entre linhas que me são mães, noto um berço que me adota em almofadas. Se algo ocorre na rua central já não é o meu nada. Aplico em vida e as onomatopéias selam horrores que em mim se aposentam.

Nas linhas que me são criadas deixo pontas de passos calmos e guris. Ao sábado de luz tal a sua, penso um soneto que caia música em nós. Falto ao acorde, não cifro ao solista, nem sei partitura, mas ouço como ouço a música. Em frente ao verso, entro em asas, e no êxtase, caio em graça.

Teço à noite e noto luzes em casarios. Há muitos e mais a tecer. Finco as linhas que me são aqui. Se frágeis, não apenas elas. Nelas, vivo o quanto é meu, mas choro porque não há nós. E cravo em mim, na falta de nós, a ausência de ti.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Acasaladas

Mãos tateiam, brincam e se fecham: uma na outra.

Acasaladas percebem: antes de se tocarem já estavam coladas.

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Ayrton Baptista Junior, abril de 2000.

terça-feira, 16 de março de 2010

O apreciador e a porcelana

Ao perceber a porcelana, o apreciador se aproxima, dá uma volta, se aproxima novamente. A porcelana desconfia que ele procura a seção de brinquedos.

O apreciador dá outra volta, se aproxima novamente, como quem avisa não querer brinquedos e que sabe admirar a porcelana. Quando a encontra.

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Ayrton Baptista Junior, em 2000

sábado, 13 de março de 2010

Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo leu no jornal que o Amor saiu de moda

A campainha tocou insistentemente. “Quem será o chato? Logo num sábado de manhã?” Mas que nada... Uma visita muito especial: Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo! Falei dela naquela noite. Lembra? Menina, você não sabe o bem danado que Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo me traz.

Abri a porta, Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo entrou, bateu no teto, de enorme que é, e mostrou um recorte de jornal. Veja que não é criança Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo. É do tempo do jornal...

Alguém escreveu que o Amor saiu de moda. “Você acredita?”. Respondi que não, que já anunciaram a decadência de tanta coisa, do jeans, até da novela, e lembrei que o Amor é mais popular que a Coca-Cola. Por mais que o guardem numa fotografia, num arquivo de computador, todos querem levá-lo pra passear num sábado como hoje. Não tem jeito do Amor acabar!

Me empolguei tanto que Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo sorriu ainda mais. A conversa prosseguiu, ofereci café e bolachas, mostrei a canção da Cris Mora: “O tempo de chorar... passou!/Ah... coração meu/amanheceu/Vem ver o sol que nasce na janela”.

Quem a conhece fala que Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo é jovial, alegre, que nada a derruba. Se você tiver um tempinho (sei que a vida está corrida), eu te apresento ela.

Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo pediu pr'eu mostrar este texto pra você. Enquanto eu escrevo, ela desfaz a bagagem. Minha Vontade de Dizer Eu Te Amo não quer ir embora.

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Ayrton Baptista Junior, hoje

quarta-feira, 10 de março de 2010

Até amanhã

Sem pudores, a janela fica aberta e venera o hoje que mora lá fora. Nele, há ruas ativadas por passos e falantes tão da casa, mas que agora assustam. Sei, porque lá não vou. Se for, saberei o quanto eles não me encolhem.

Cá dentro, trancas e trincos me desabonam para um salto. Penso o gesto mínimo como uma epopéia e caio a pensar no que ainda é matinal. Alguma poeira por assoprar, uma carta por abrir, estantes por limpar, um telefone por tocar. Há vida, creio, no lado de quem irá (?) soar no interfone. Ir à ela é que são elas.

Deito no espaço que me é muito. Perto, coisas que me foram caras e que parecem nada. Nem crenças mais tenho de que a janela será fechada. Espero chuva e pálpebras que me baixem a vista. No certificado de que não há alguém pedaços de ontem me atiçam para o anteontem. Sem passaporte, passeio em risos e choros. Num segundo que me devolve ao presente acho uma corda que me equilibra entre becos e clarões.

Ouço que sou mais ao dia, mesmo à noite. Falo que sou mais à noite, mesmo ao dia, mas invoco: já é tarde. Tarde tanta que já não acenaria bom dia. Espero a noite para afirmar ao sol o quanto ele é escuro. De tanto escuro, no todo invisível. Ah, como eu tenho razão! O dia que da janela é claro será finado em dizeres de boa noite e sequer terá passado de um dia.

Sei que ele irá como foi: inibido, nada festivo e de nada vestido. Alguém discorda? Até amanhã! Por ora, apenas um dia levado por horas e minutos. Afinal, um espaço de tempo que só serve para ser vivido.

terça-feira, 2 de março de 2010

Toc-toc, Péééiiiiiin, Dim-dom

Escada encardida, corrimão de verniz secular, corredor sombrio, luz cinqüenta velas. Parede de esmalte seco. Portas: quatro.

Toc-toc: a velhinha. O velho álbum, a tevê em preto-e-branco, a radiola, o gato, a página de anúncio classificado estendida no piso não encerado, o emoldurado retrato de casamento na cômoda, a goteira, o carcomido tapete à beira da cama, dois 3x4 do filho no criado mudo, resto de tecido preso na máquina de costura, o calendário do mês atrasado, o sorriso da bisneta, a conta da luz (paga) do mês vigente na entrada, o rádio quebrado de ondas curtas, revistas que custaram cruzeiros, o pequeno baú sobre o guarda-roupa, o vestido branco estampado de margaridas, o telefone sem teclas, o nome do falecido na correspondência.

Péééiiiiiin: o meia-idade. O recorte do encontro de cineclubistas, rabiscos e sorriso de moça no porta-retrato, a tevê a cores, a cama por arrumar, a máquina de escrever, a poeira no disco do três-em-um, o guarda-roupa sem portas, o cartaz da peça revolucionária, a geladeira mal fechada, um escritor há muito esquecido em três ensaios de jornal, a filmadora super-8, a calça boca-de-sino no pôster, duas latas de cerveja amassadas no canto da sala, a gaveta de escritos mimeografados, cicatrizes no corpo, o telefone com teclas, o livro de poemas da irmã desaparecida.

Dim-don: a estudante. A bolsa da faculdade de filosofia, o controle remoto da tevê, a sandália preta, o aparelho de CD, dois cigarros no maço, a esponja de aço gasta em cima do prato do almoço, o pedaço de papel com um nome e vários números anotados no bolso de trás da calça, três folhas caindo da agenda, o rádio ligado baixo no programa de blues, fiapo de algodão no frasco de desodorante, o grampo de cabelo na pia, a camisa da banda de rock, o recheio de queijo e presunto no pão, a infância numa fotografia da escola, o telefone celular, a página marcada no livro da escritora suicida.

Quarta porta: olho mágico, pintura descascada, um fio de campainha à solta, um número deslocado no alto. Sobre o capacho o jornal de ontem não recolhido, duas correspondências e o transbordar de manchas de sangue que nasce no lado de dentro do apartamento.

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Ayrton Baptista Junior, em 1999

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Espelho na primavera

Não foi a insônia a vilã daquela noite. Alguém bateu na porta com insistência. Quem? Foi olhar e viu ninguém e uma intimação: comparecer ao tribunal que a acusava de ser bela.

Intimidada, juntou cartas e fotos amareladas e algumas rugas para se defender. Argumentou que a acusação seria justa em outras primaveras, não agora. Não convenceu.

Num intervalo, correu ao espelho, mas este negou socorro e, para agravar, covardemente juntou-se ao júri, disparando linda, gostosa e outros palavrões. Um, mais exaltado, disse que por ela seria capaz até de viver.

Era uma contra o mundo. Impiedoso, o meritíssimo bateu o martelo e a condenou a se enxergar.

De volta ao seu canto, atordoada, sem entender nada, começou a passear em si mesma. Percorreu uma estrada de sensações e aromas que julgava não mais lhe pertencer. Entre lagoas ensolaradas e abajures à meia-luz, descortinou fantasias, foi ora romântica, ora (muito) levada e sempre ela mesma. Descobriu-se intensa, plena e dona de todos os atributos que ouvia quando menina.

Senhora de si, ousou ir à rua e encontrou uma avenida de espelhos: certificou-se de que era bela, que o tribunal tinha razão e que não havia mais o que fazer a não ser viver e receber flores... sem saber porque.

Não será uma manhã de primavera?

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Ayrton Baptista Junior

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Armada a lápis (fábula)

A escritora lamentava uma página sobre a hostilidade do mundo quando foi abruptamente interrompida. Ela se assustou, mas logo reconheceu aquela aluna armada com lápis, papel e sonhos e se rendeu.

A menina tirou a borracha do estojo, apagou a crueldade que o jornal publicava e sorriu. A adulta sentiu-se condenada a ser feliz e, sem saber como ou porque, voltou a uma sala da infância. Observou o quadro negro, ouviu o sino tocar entre o silêncio e reencontrou a menina, agora criadora de um mundo harmonioso numa folha de caderno.

A escritora soltou lágrimas, despediu-se lentamente da sala e sorriu como a aluna ao entregar a redação. Nada mais a abateu. Nem o mundo, nem a madre, nem a inspetora.

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Ayrton Baptista Junior, novembro de 2009